Como se proteger de abuso sexual. Veja sete ações

*Por Leonardo Sant’Anna

Atualmente ouvimos todos os dias notícias de que alguma mulher foi vítima de abuso sexual, violência ou feminicídio. Vivemos tempos difíceis de acreditar e, principalmente para as mulheres, tempos medonhos de até andar pelas ruas tranquilamente.

Infelizmente, no entanto, na minha carreira policial já atendi muitos casos como esses. Não é de agora. Lembro, por exemplo, que nos anos 90 uma equipe policial pedia ajuda pelo rádio. Em uma das muitas madrugadas silenciosas do DF, eles queriam saber se havia policiais femininas disponíveis para algo muito específico. A resposta veio seca e rápida: havia sido encontrada uma jovem com as roupas rasgadas, rosto machucado e sangrando na altura do nariz e olhos.

Já sabíamos do pior. Mais uma mulher havia sido agredida de forma brutal e desumana. A palavra que veio logo a seguir emudeceu tanto nossos rádios como nossas almas: estupro. A lembrança de que poderia ser uma de nossas irmãs, mães e filhas cala qualquer tipo de som. Os que podem ser ouvidos e os que não podem.

Estamos falando de 1995. Mas em 2019 isso ainda se repete aqui e em diversas partes do mundo. Essa e outras dores não têm idade ou nacionalidade definida. Comparando Brasil e Estados Unidos, por aqui foram quase 50 mil registros de violência sexual, enquanto lá beirou-se 96 mil. Segundo o UN Woman, a partir dos 15 anos, 1 em cada 10 mulheres da União Europeia sofreu algum tipo de violência pela internet. E esse risco é muito maior entre 18 e 29 anos.

Independente do que lhe digam, é preciso deixar bem claro que mulheres não sofrem violências sexuais por serem mais independentes, por usarem roupas que revelam um ou outra curva do corpo, ou por serem mais extrovertidas e frequentarem ambientes badalados. Isso acontece por uma razão simples: alguém decidiu cometer aquela violência. Alguém ouviu um ‘não’. Não há desculpas aceitáveis. Nada justifica a conduta insana do abusador. A profundidade da ferida, em muitos casos, não permite que se esqueça aquela cicatriz.

O que fazer para minimizar o risco em suas novas relações? Existe possibilidade de se prevenir?

SETE AÇÕES – simples – que sempre menciono em minhas palestras. E mesmo sendo básicas são muito importantes para evitar que novas vítimas entrem nas estatísticas. Dessa vez, acompanhando o exemplo acima, vou me concentrar no que há de mais comum: os agressores noturnos. Os pontos abaixo fazem com que esse tipo de crime seja muito mais difícil de acontecer:

1.      Não confie na sorte, confie no triângulo. Conheça o TRIÂNGULO DO CRIME, que é composto por 3 itens: o agressor, a vítima e a oportunidade. Tirando a oportunidade dessa equação, você reduz muito as chances de sucesso do agressor. Como? Previna-se. Estar consciente da importância da prevenção é fundamental para isso. As próximos 6 medidas te ajudarão nisso.

2.      Vai ter um encontro? Compartilhe com alguém de sua confiança. É legal que alguém saiba onde você pode ser localizada. Isso está mais na moda do que qualquer outra coisa. Apenas saber onde você está pode te tirar de grandes problemas.

3.      Sua bebida, sua responsabilidade, OK? Está com o Crush? Ótimo. Mas não descuide de seu copo de Margarita ou Cozumel. O golpe Boa Noite Cinderela precisa exatamente desses ingredientes para funcionar: confiança além da medida e um copo.

4.      Pesquisar não ofende. Google, Facebook e Instagram te respondem muita coisa. Caso saiba, pesquise rapidinho na internet sobre o local para onde te convidaram e dê uma discreta bisbilhotada na vida de quem estará com você. E essas coisas os matchs do Tinder não vão te contar.

5.      Use um acompanhamento virtual gratuito. Está indo ou retornando de um encontro super legal? Ótimo. Compartilhe seu itinerário com alguém usando a função do WhatsApp que dá, em tempo real, todo o seu caminho de ida ou de volta. Se tiver IPhone, o aplicativo Amigos também te dá essa possibilidade.

6.      Ser pesquisada ofende? Se você quiser evitar possíveis problemas, que tal desabilitar algumas funções que deixam sua vida virtual completamente exposta? Coloque o foco no seu Face e no Insta. Às vezes,saber menos sobre você é ter muito mais segurança.

7.      Pratique o SDS. Esse SDSnão é o Só Deus Sabe. Estou falando do Solidariedade da Segurança. Isso nada mais é do que ver alguém sendo ou prestes a ser vítima e simplesmente ajudar. Não estou falando de se envolver e ficar vulnerável.Só ajudar. Olhar os detalhes das roupas de um possível agressor, ligar para o 190 quando perceber algo estranho ou, caso o fato tenha acontecido, ligar no 197 (disque denúncia da Polícia Civil) podem lhe tornar uma heroína/herói anônimo. E a sensação é indescritível. Garanto.

Se já faz isso, nota mil para você. Se não, o que acha de começar? Tornar as mulheres mais seguras e menos vulneráveis é uma ferramenta fantástica de empoderamento.

A proteção para as mulheres não é apenas no 8 de março. Temos que praticá-lo todos os dias.

Leonardo Sant’Anna é especialista em segurança pública, coronel da PM reformado. 

Copyright© 2018 | Gazeta Brasília - Jornal Online de Brasília | contato@GazetaBrasilia.com.br